segunda-feira, 29 de abril de 2013
A origem da denominação Timbrado no canário do País
Miguel Angel Martín Espada
Juiz C.N.J./F.O.C.D.E. de Canto T. Espanhol
"Timbrado: Diz-se da voz que tem um timbre agradável".
"Timbre: Modo próprio e característico de soar um instrumento musical ou a voz de uma pessoa".
(Definições extraídas do Dicionário da Real Academia Espanhola)
Nos últimos tempos regressou em força a velha polémica sobre a origem do termo Timbrado. É certo que não foi um tema que me preocupou muito, independentemente de como se lhe queira chamar o nosso canário (recordo o leitor que, actualmente, dentro da F.O.C.D.E. usam-se indistintamente as denominações de Canário de Canto Espanhol e Timbrado) o importante é o canto e neste, ainda que não seja do agrado de todos, primam os giros de ritmo não continuo, sendo os descontínuos os que melhor caracterizam e definem as canções do nosso cantor em relação a outras raças canoras. Sempre defendi e defenderei que é no trabalho para a melhoria da raça em que devemos centrar os nossos esforços, esquecendo outros assuntos secundários que só perturbam a pacífica convivência entre os aficionados que, embora baseada no respeito mútuo, mantém posturas diferentes, mas isso não significa ter uma opinião e tentar contribuir para a verdade dos factos.
Neste sentido e dependendo do tipo de giros que cada criador prefere, a origem do nome Timbrado costuma-se explicar baseada em diferentes fundamentos. Para alguns, a origem está nos timbres que são os giros fundamentais do canto da raça. Outros, fazem referencia à peculiaridade do timbre de voz, caracterizado pelo sua especial habilidade para interpretar giros de bela sonoridade metálica.
Ambas as teorias se utilizam como se fossem opostas, quando na realidade é bem diferente. A ambiguidade da maneira de dizer timbrado utilizou-se, no momento, para tentar contentar o maior número possível de aficionados, mas, pela forma como se impôs, logo se transformou numa autentica batalha campal entre os que defendiam os timbrados proclamados pela A.C.E. e os que mantinham que aqueles não eram, nem pelo nome nem pelo canto, os genuínos representantes da almejada antiga raça do País(cujos os mais famosos expoentes, parecem ter sido e foram os canários de Vich). A polémica adquiriu proporções inimagináveis, sobretudo, após a publicação da noticia de que nas Astúrias se criavam canários cujo canto se identificou, por ilustres personagens da canaricultura nacional que a reconheceram, como aquela maravilha canora alada que se julgava perdida para sempre. Contudo, foi Antonio Drove Aza quem, em 1952, identificou o tipo de canto de uns exemplares que ouviu em Aviléscomo o mesmo que caracterizava os seus amados canários de Vich.
Além da controvérsia, é preciso fazer uma retrospectiva e estudar a questão de uma forma objetiva. Para isso devemos recorrer aos testemunhos escritos que nos deixaram os protagonistas da seleção da raça. Todo aquele que não suponha fazer um estudo histórico do assunto não deixa de ser mais que pura especulação e isto é o que menos necessita o Canário de Canto Espanhol.
A finalidade destas linhas não é nem criticar nem defender o nome de Timbrado, já deixei claro que para mim é um tema secundário. Mas, em honra da verdade, penso que é o momento de aclarar certos aspectos, ou, melhor, de apresentar, ainda que seja de forma breve e concisa, uma série de factos para os aficionado para que seja este a reflectir e chegue às suas próprias conclusões, com conhecimento de causa e não porque o diga alguém que, possivelmente, tenha, ainda, menos ideia que ele sobre este tema.
Antes de entrar nesta matéria e para ir sintonizar o leitor, aqui fica a primitiva ficha de julgamento do Timbrado Espanhol, aquela que se fez sob a direção de Alejandro Garrido e que começou a utilizar-se em 1950:
NOTAS RÁPIDAS TIMBRADAS
Timbre agudo............................3 pontos
Timbre normal............................6 pontos
Timbre grave.............................9 pontos
NOTAS INTERMÉDIAS
Chau Chau................................3 pontos
Piau Piau...................................3 pontos
Cloqueios...................................9 pontos
Cascaveleio................................9 pontos
Castanholas...............................9 pontos
NOTAS LENTAS
Clamadas...................................3 pontos
Notas Lentas (Floreios e Notas com Eco). 9 pontos
Impressão geral................................9 pontos
Tom de canto....................................6 pontos
NOTAS DE CASTIGO
Prolongação de nota....................6 pontos
Silvo ou rascada..........................6 pontos
Estridência....................................6 pontos
Dos artigos da época conclui-se claramente que a denominação de Timbrado se adoptou por dois motivos:
1º) Porque se consideravam os timbres como giros básicos do até então denominado canto do País.
2º) Pela emissão do canto em tonalidades altas e metálicas.
O problema principal suscitou-se pela forma como se adoptou a denominação de Timbrado Espanhol pela A.C.E., sem, ter em conta a opinião de um importante sector de criadores da outra parte interessada, o Grupo Nacional de Pássaros, do Sindicato de Ganadaria. No mesmo se encontravam prestigiosos canaricultores e juízes, os quais mostraram a sua desconformidade tanto pela nova denominação como pelo facto de se terem ignorado os conselhos daqueles que conheceram a grandeza do antigo canário do País e tentavam evitar que se instaurasse um tipo de canto muito diferente daquele que fizera famosos e respeitados os canários de canto espanhóis, já que o canto que se considerava básico pelos criadores da A.C.E. era, na opinião daqueles, o produto da mistificação produzida por desafortunados cruzamentos com variedades estrangeiras (entre elas o canário Roller, não convém esquecer que uma das causas em que não se reconheceu internacionalmente o TimbradoEspanhol em 1956 foi, precisamente, por considerarem os especialistas internacionais que era o produto, não depurado, de cruzamentos com a raça alemã).
Assim, encontramos opiniões como as de J. S. Rico Núñez e S. Ruiz, que defendiam que se mantivesse a antiga denominação de Canário do País. Para Rico "a denominação de Timbrado Espanhol não era nova, era uma nova versão alemã que nem se quer era original". A oposição de Ruiz baseava-se em que, se timbrado vinha de timbres, a denominação era incorrecta porque estes giros eram comuns e iguais em todas as raças e, em consequência, não podiam ser considerados como determinantes e característicos do canto do Canário do País.
Mais duro foi Antonio Drove, ainda que residindo em Madrid, era natural de Vich, uma das povoações onde, como já se mencionou, chegou a alcançar a sua maior perfeição no canto do País. Este reputado juiz internacional de canto Roller, director naquela época da revista "Pájaros", tinha sido criador na sua juventude do prestigioso canário de Vich e como conhecedor da raça não podia aceitar a denominação de timbrado por vários aspectos:
1º) Os timbres não eram os giros básicos do antigo canto do País, muito pelo contrário, eram os giros de ritmo de emissão não continuo os que melhor o definiam.
2º) Os timbres definidos no Código de Canto do Timbrado Espanhol, nos quais se baseava o nome da raça, eram na realidade rulos, que se definiam como giros de ritmo continuo, já que na canaricultura de canto independentemente das raças, os conceitos eram os mesmos e o timbre era considerado um giro de ritmo semi-continuo. Assim, não se explicava como, sendo conhecido o conceito de timbre do canto Roller (klingel), os autores do Código do Timbrado se esquecessem separar do mesmo, especialmente tendo em conta que para realizar o respetivo Código se tivesse tomado como referência o da raça alemã, elaborado pelo alemão Wolf e que no referido código as pontuações se baseavam na famosa regra da tridivisibilidade também conhecida como 3 - 6 - 9 -.
3º) Também não estava de acordo com nome de timbrado referido na peculiaridade da voz da raça, já que, na sua opinião, limitava o registo tonal da mesma e favorecia a emissão de cantos em tonalidades altas, em contraposição às baixas do canárioRoller, o que, além de favorecer cantos estridentes, em absoluto caracterizava os antigos canários do País.
Todas estas críticas, possivelmente, passaram inadvertidas se não tivesse sido, como já se referiu anteriormente, pelo descobrimento nas Astúrias de canários cujo tipo de canto foi reconhecido como o da primitiva raça espanhola. Isto, juntamente com o êxito que logo obtiveram os canários asturianos entre os criadores madrilenos, fez com que a polémica se reavivasse, já que as críticas de Antonio Drove e Santiago Ruiz encontraram um sólido apoio nas suas teses sobre o autentico canto docanário do País.
Logo, desde as Astúrias, surgiram vozes como a de Cayetano Pérez Manso, presidente da A.O. "El Carbayón", reclamando uma nova denominação da raça: Cantor Espanholao mesmo tempo que denunciava a situação dos canários asturianos nos concursos, contra as injustiças que propiciava um Código no que, paradoxalmente, não se podia evidenciar, como já denunciaraDrove, a riqueza e a variedade do canto dos genuínos canários do País.
Todas estas críticas foram desprezadas pela A.C.E. e pela F.O.E.. Em 1962 a C.O.M. reconheceu internacionalmente o TimbradoEspanhol a pedido da F.O.E.. Foi a partir deste momento quando começa a confusão dos aficionados em relação à origem do nome da raça, pelo menos dentro do Grupo Nacional de Pássaros.
No G.N.P. marcaram-se logo umas directrizes do que deveria ser o canto do Timbrado muito diferentes das seguidas pelos criadores da F.O.E.. As opiniões de Rico, Ruiz, Drove e do cada vez mais importante grupo de juízes asturianos, encabeçados por Rafael Martínez Bouzo, fizeram com que se reconsiderassem muitos conceitos até hoje inquestionáveis, um deles foi o nome da raça. Foi a partir daqui que surgiu a actual confusão sobre a origem de timbrado, já que, ao não compartilhar que os timbres são os giros básicos do canto do nosso canário, se procurou incutir aos aficionados, como mal menor, que a denominação se devia única e exclusivamente ao timbre de voz.
A coisa tinha ficado assim, dentro da A.O.N.S. (nome que adoptou o G.N.P. em 1971), Se não tivesse havido a integração da A.C.E., na mesma, em 1972.
Os criadores e juízes da A.C.E. encarregaram-se, para além de defender a sua visão de como devia ser o canto, de recordar que eles foram os que baptizaram a raça e que timbrado vinha também de timbres.
O resto da historia e suas consequências são de sobras conhecidas por todos. Desde então, a questão do nome tem sido a arma favorita de uns e outros para justificar não só a sua origem mas que tipo de canto é o genuíno do Timbrado Espanhol. Para complicar a situação, pessoas que, noutras alturas, defenderam as postura da A.C.E., e agora dizem que timbrado se deve ao timbre de voz, da mesma forma houve quem defendesse no passado que os timbres não eram giros básicos da raça e agora afirmam totalmente o contrário. A situação, longe de se aclarar para quem viveu directamente a origem desta polémica, se enreda mais. Em quem acreditar?.
O certo é que , depois de dar uma olhadela ao seguido pela questão, há algumas perguntas que não saem da minha cabeça:
- Se se denominou timbrado ao nosso canário pela sua emissão de timbres, porque não se baptizou a raça com o nome deTimbrador?. Dizia-se que Timbrado vinha de timbre o que Roller vem de rulo, mas a ninguém escapa que a tradução de roller é rolador ou, mais correctamente, rodador (não rulado ou rodado), ou seja, que rola ou roda. Timbrado, pelo contrario, no idioma castelhano, significa provido de um timbre de voz agradável.
- Se os timbres eram os giros que caracterizavam o canto da raça, porque não lhes concederam as pontuações mais altas?. De entre os timbres, apenas o grave aparecia com uma valoração de 9 pontos, o que resulta um contra-senso se tivermos em conta que se defendia que o canto teria que ser metálico (como consequente, segundo visto, ter sido concedido maior pontuação ao timbre agudo, da mesma forma que se faz com a variação rainha do Roller, o rulo oco - hohrollen -).
- Tomando-se como referência o canto Roller, porque se consideraram alguns conceitos como válidos e outros não?. Porque não se atenderam as observações técnicas levantadas, neste sentido, pelos prestigiosos juízes de Roller como Drove?.
- Porque não se tiveram em conta, por parte dos criadores da A.C.E., as opiniões daqueles que tinham conhecido directamente o canário do País na sua época de maior apogeu?. não primariam, como alguns denunciaram então, questões de rivalidade inter-federativa?.
A maioria das perguntas apresentadas carecem de resposta possível, é ao leitor para quem fica a árdua tarefa de, com vista aos factos expostos, tirar as suas próprias conclusões. Mas o verdadeiramente terrível de todo este assunto é que seguimos discutindo sobre temas suscitados à cinquenta anos. Quando não é o nome são os giros, que sem timbres sim ou timbres não, que sem CHAUS e PIAUS sim ou não etc., etc., etc.. Em vez de nos centrarmos na procura de linhas diretoras mais adequadas para seguir com a melhoria da raça, teimamos em tentar desfazer tudo o que se fez. Por isso não progredimos como deveríamos, porque estamos imersos num círculo vicioso que, ao longo do tempo, tem feito que os débeis fundamentos que se forjaram nos anos cinquenta favoreçam que nos encontremos sempre afundados num continuo desacordo.
O tema da origem da denominação Timbrado deve servir ao criador para ver o estéril de algumas polémicas que o único que tem feito, fazem e farão é destruir aficions passadas, presentes e futuras. Resulta sorprendente que, apesar de tudo, a nossa raça seja uma das que mais adeptos ganha a cada temporada. Pois imagine o leitor a expansão que teria se não passássemos a maior parte do tempo discutindo por e sobre burrices.
© Miguel Angel Martín Espada
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